Posso sentir os momentos que passamos juntos vendo o por do sol da praia grande, horas de espera e reflexiones e diálogos que ficaram cada vez mais no passado distante de memórias que se apagaram com o tempo. O que lembra de mim? Um sorriso, uma caricia, algo que eu disse e que não me lembro? Houve um momento que eu me senti muito só. Acho que sempre foi assim. Ninguém conseguia entender o que eu dizia, nem eu mesma sei bem o que eu dizia. Eu julgo meu eu do passado, mas ainda vivo nas mesmas agonias existenciais. Para aonde irei depois daqui? O que acontece no momento do adeus? Somente posso confiar nas histórias que escutei de outras pessoas, mensagens ocultas sussurradas do abismo. Mas, como uma credora cética, eu tenho que viver essa experiência por mim. E como todos os demais, não poderei descrever realmente o que eu vi.
Apenas posso dar testemunho das imensas transformações que vivi ao longo dos anos, apesar de me sentir a mesma de antes. A mesma com todas as minhas inseguranças de adolescente, os micos, a paixão extrema e a desilusão pelas coisas que não eram como eu pensava que deveriam de ser. Sempre existiu essa pressa de não ser esquecida, apesar de despertar todos os dias sabendo da minha insignificância. Que meus passos seriam borrados da história, assim como vejo que foram borrados mesmo. Eventos que eu participei, e ajudei a desenvolver sendo lembrados nos stories das redes sociais, mas meu rosto apagado e esquecido, como se eu não tivesse estado ali, mas eu estava.
Acho que quem ajuda nunca recebe as devidas gratificações, é como um gaslighting na minha mente. Será que fui de alguma significância? Agora somente encontro o silêncio. Silêncio que eu mesma busquei. Já que me cansei de tentar ser compreendida e encaixar em alguma parte dessa vida. Agora meus dias de agonia continuam, comigo mesma como espectadora. Esperando o meu fim, a minha experiência final, que talvez traga alguma resposta para tudo isso que eu passo agora, que muitos também passam. Convenhamos, ninguém é realmente significante. Pelo menos eu escrevo, na tentativa de escapar a essas adversidades do tempo e aproveitando a conectividade de tudo, para imaginar que estou compartilhando algo com seres vivos como eu. Quando, na verdade, imagino que somente uma IA vai aprender disso tudo e cruzar com essas minhas palavras torpes, depressivas e sem sentido algum.
Tudo o que eu escrevo até agora, faz parte de uma tentativa de silenciar as vozes que escuto, tal qual uma esquizofrênica. E me pergunto se fazem algum sentido, se são verdade. Algumas vezes, as palavras saem através de mim, com uma sonoridade bonita, que eu devo imprimir, nas minhas agendas, diários ou em um dos meus milhares de arquivos sem definição. Uma verdadeira ouvinte do universo. Uma rádio que transmite uma mensagem na esperança de que ela chegue aonde deve chegar, que depois de concluir a transmissão é totalmente esquecida e evapora pelo ar. Tento me comunicar, mas quem sabe eu fale outra língua ou esteja em outra frequência, difícil de sintonizar.
E tudo isso cansa. Também não tenho paciência de editar. É um diário ao vivo. Eu senti, eu publiquei. Se a inspiração fugiu, com certeza foi parar nas mãos de outro mensageiro. Quantas vezes já me deparei com pensamentos que tive, há muito tempo atrás, em livros e séries, ou até mesmo inventos físicos mesmo?! Considero essas observações como prova, de que o universo, as mentes, tudo está conectado, assim como a Lei de Newton descreveu: Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
Agora, com idade que eu tenho, decidi que somente vou jogar todas minhas questões por aí. Sem medo do julgamento. Já me sinto com tempo, já não dependem tanto de mim e o modo de sobrevivência, está em um nível que eu posso controlar. Com o mundo acabando perante nossos olhos, mais uma vez de tantas, sinto que preciso continuar escrevendo para não enlouquecer. Já que, não tenho nenhum controle sobre o que acontece, quem sabe alguém conecte nessa rádio frequência e se sinta menos só e acompanhado, enquanto vemos as pessoas mais idiotas da face da terra acabando com tudo.